Emissão de moeda nem sempre causa inflação

Recebi um vídeo dia desses em que um rapaz do BBB21 dizia algo assim: "o pessoal pensa que o Banco Central pode imprimir dinheiro à vontade, mas não pode. Isso sempre vai gerar inflação. Porque criar emprego tem um custo, sabe? Tem uma curva que diz que para reduzir um pouco mais o desemprego, é preciso aceitar um pouco mais de inflação". Ele dizia isso dançando para lá e para cá!
Pois bem, me disseram que ele vai fazer o doutorado em Economia (só não sei onde). Mas é preciso dizer com todas as letras que as duas afirmações dele estão erradas. Imprimir mais dinheiro só gera necessariamente inflação se a economia estiver em pleno-emprego. Isso é tanto verdade que, depois da crise de 2008, em que o Fed (Banco Central Americano) e o BCE (Banco Central Europeu) imprimiram trilhões de dólares e euros, respectivamente, a inflação lá continuou muito bem comportada, não passou de 2% a.a.
Já a tal curva (suspeito que ele esteja se referindo à Curva de Phillips) está flat (plana) há quase duas décadas. Aliás, Krugman escreveu um artigo interessantíssimo em seu blog na semana passada, em que mostra que a Curva de Phillips sempre foi flat (isto é, plana, que coisa!). Os argumentos e as evidências estão lá. E Ricardo Summa e Júlia Braga escreveram um magnífico artigo com toda a história de Curva de Phillips, em que chegam (em certas passagens) a conclusões semelhantes às de Krugman. Economistas, vale a pena ler este artigo do Summa e Braga.
A propósito do tema deste post, saiu uma entrevista com o Joseph Stiglitz (Nobel de Economia), no Valor de 19/02/2021, em que, ao ser perguntado sobre o que ele teria a qualificar com relação aos teóricos da MMT (Modern Monetary Theory), sua resposta foi (depois de dizer que concorda com muitas conclusões desta teoria):
Stiglitz: "O que acho um pouco complicado na maneira como eles apresentam suas ideias, e acho que muitos deles concordariam comigo, é que muitas vezes passam a impressão de acreditar que seria possível imprimir dinheiro sem criar inflação em qualquer circunstância. Entendo como eles chegaram a essa ideia. Afinal, nesse período recente que chamamos de grande recessão, desde 2008, de fato expandimos o núcleo da base monetária de US$ 800 bilhões para US$ 4 trilhões, e agora expandimos de novo para US$ 7 trilhões. Mesmo assim, não há o menor sinal de inflação no horizonte. Se podemos expandir a base monetária sem inflação, talvez seja possível fazer bem mais! Minha resposta para a ideia de que podemos expandir tanto assim a nossa base monetária é que essa expansão não fez nada! A política monetária foi ineficaz! E se a política monetária não funciona para aumentar a demanda, então é claro que ela não vai ser inflacionária. O que fizemos, basicamente, foi dizer aos bancos: vocês podem emprestar mais. Só que os bancos não estavam interessados em emprestar mais. A antiga teoria monetária diria que expandir a oferta de moeda automaticamente se traduz em mais gastos (e, portanto, em mais inflação). Gosto de enfatizar que isso simplesmente não é verdade".
Como disse, o rapaz do BBB21 precisa se atualizar em teoria monetária.