O megapacote de Biden: US$1,9 trilhão para socorrer a economia americana, maior do que o PIB brasileiro

E o megapacote de socorro de US$1,9 trilhão(!!!), finalmente aprovado hoje pelo Congresso americano, hein? Maior do que o PIB brasileiro de 2020 (cerca de 20% superior)!!! Lawrence Summers (keynesiano insuspeito), que vinha defendendo veementemente o expansionismo fiscal, levantou a polêmica de que o pacote seria exagerado demais e que, por isso, poderia aquecer demasiadamente a economia, causando inflação, logo adiante.
Paul Krugman rebateu com um argumento interessante: não seria inflacionário, porque essa crise é totalmente diferente das crises recessivas convencionais, cuja causa original é econômica. A crise atual seria causada por um choque exógeno não-econômico (coronavírus). Nesse sentido, o argumento de Krugman é que, como a pandemia retém os trabalhadores em casa e as empresas com a produção praticamente paralisada (sobretudo no setor de serviços, que exerce enorme dinamismo na economia americana), o pacote apenas repõe uma demanda mínima, evitando que a economia colapse e o desemprego salte para níveis inimagináveis. Para Krugman, não se trata de estimular a demanda agregada, como costuma ser o caso nas crises convencionais. Aliás, Krugman, num artigo de ontem no New York Times, chega a sugerir que, passada a crise sanitária, aí sim, seria necessário mais estímulo, dessa vez para fomentar a demanda agregada, fazendo engrenar a recuperação.
Quem tem razão? Difícil prever. De todo modo, mesmo que venha a causar alguma inflação, estou com Janet Yellen (a secretária do Tesouro responsável por sua concepção e proposta): a hora lá (e deveria ser algo parecido aqui, mutatis mutandis, evidentemente) é de "agir grande". Até porque, segundo Yellen, se houver inflação, o Fed teria meios de contê-la, sem problemas. Por que penso que Yellen está certa? Por duas razões: primeiro, porque, desde 2008, o Fed vem "rebolando", sem sucesso, para fazer com que a inflação anual, invariavelmente abaixo da meta de 2%, alcance essa meta. Ou seja, desde 2008, o Fed já jorrou trilhões e trilhões de dólares no mercado (com emissão de moeda via QE) para evitar a "japanização" da economia americana (ou seja, evitar deflação); segundo, porque Summers parece conservar o "aprisionamento mental" (essa expressão ouvi de André Lara Resende, referindo-se aos ortodoxos daqui) dos monetaristas de associar superaquecimento à aceleração da inflação, e não apenas ao aumento do nível inflacionário. De todo modo, isso é surpreendente em Summers, pois ele é muito mais preparado e arejado do que os ortodoxos daqui. E aceleração da inflação e aumento do nível de inflação (que é o que pode ocorrer lá) são dois efeitos totalmente diferentes.