A voz suprema do blues: um filme imperdível na Netflix

Não sei se exagero, porque nessa pandemia tenho lido mais do que assistido a filmes, mas penso que "A voz suprema do blues" é o melhor filme que vi este ano. Na Netflix, com produção de Denzel Washington, recomendo muitíssimo. Baseado na peça de August Wilson "Ma Rainey's Black Bottom", de 1984 (não vi, adoraria ver isso no teatro), mostra um dia de gravação de um disco de Ma Rainey, em 1927, considerada a mãe do blues. Como o blues nasceu da dor física e espiritual associada à escravidão afro-americana, o filme mostra, de forma poética, com diálogos impecáveis, os conflitos entre brancos e pretos, pretos e pretos, ricos e pobres, numa época em que o racismo nos Estados Unidos era praticado com apoio oficialmente explícito. E legalizado!
Não bastassem o excelente roteiro, a direção precisa e a música, com arranjos de Wynton Marsalis, o filme vale pela afinação dos atores. Que atriz é essa Viola Davis! Interpreta com a cabeça, o corpo e a alma. É literalmente possuída pela personagem. Duvido que não leve o Oscar de melhor atriz. E também Chadwick Boseman, que morreu no ano passado (jovem demais para morrer). Viola conduz a personagem principal com vigor, levando-nos às lágrimas em vários momentos. E Boseman, que pode também ganhar o Oscar póstumo de melhor ator, interpreta o traumatizado músico iniciante de forma visceralmente inesquecível. Mas Viola é imbatível, porque fica no tom certo, sem mais nem menos.
Em tempo: a história se passa quando Ma Rainey, já em final de carreira, mas com voz poderosa, se sente ameaçada pela ascensão de Bessie Smith.