As medidas de Trump e o futuro do Brasil
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08ago25
As
medidas de Trump e o futuro do Brasil
Se o Brasil aproveitar a conjuntura para promover uma
transformação estrutural, os ganhos futuros podem superar os custos imediatos
Por
André Nassif
As medidas de Trump e o futuro do Brasil —
Foto: Alex Brandon/AP
Assim que Donald Trump anunciou a intenção de impor tarifas
de importação ao mundo, argumentei, em artigo no VaIor ( "A cruzada
tarifária de Trump e o Brasil", 27/03/2025), que, face ao risco de uma
guerra comercial global, o Brasil, com seu limitado poder de barganha, deveria
adotar uma estratégia de não retaliação. Desde então, aprendemos que Trump
anuncia tarifas elevadas como forma de pressão para forçar parceiros a reduzir
impostos sobre produtos americanos. Em alguns casos, como o da China, recuou
("Trump sempre amarela", como apontou Robert Armstrong, do Financial
Times); em outros, avançou, mas sem grandes ganhos, como avaliou Paul Krugman
em relação ao acordo com o Japão.
O Brasil, após sofrer uma tarifa "recíproca" de 10% em abril, foi
penalizado, no final de julho, com uma alíquota de 50%, a mais elevada entre os
acordos firmados pelos Estados Unidos. Apenas 694 dos cerca de 4.000 itens
exportados pelo Brasil ficaram isentos da tarifa máxima, sendo a maioria bens
não fabricados nos Estados Unidos (produtos agrícolas e insumos industriais
padronizados) ou de difícil substituição (aeronaves civis). Segundo a Câmara
Americana cie Comércio (Amcham Brasil), 56% das exportações brasileiras aos
Estados Unidos serão penalizadas pela tarifa máxima.
O problema transcende o comércio bilateral, pois envolve aspectos sensíveis da
soberania jurídico-política brasileira. No campo político, nenhuma concessão
que comprometa o sistema jurídico ou democrático deve ser aceita. Foi
surpreendente a justificativa usada pela Casa Branca, em decreto, para aplicar
tarifas ao Brasil: a suposta perseguição política ao ex-presidente Jair
Bolsonaro, réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe contra
o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva.
Foi também preocupante a aplicação de sanções financeiras ao ministro Alexandre
de Moraes, por alegadas violações à liberdade de expressão e aos direitos
políticos cie Bolsonaro. Dada a imprevisibilidade de Trump - inclusive quanto a
possíveis intervenções militares, o que não é paranoia conjecturar -, o Brasil
deve recorrer a canais jurídicos internacionais para resguardar sua soberania.
No campo econômico, o governo Trump incluiu o Brasil em investigações por
práticas comerciais desleais, ameaçando sanções com base na Seção 301 da Lei de
Comércio dos EUA, usada nos anos 1980 para pressionar países latino-americanos
a adotarem práticas liberalizantes em benefício das corporações americanas. O
Brasil deve resistir a tentativas de impor mudanças que extrapolem o comércio
internacional.
Do ponto de vista comercial, ao ser alvejado com o maior gravame tarifário
entre os acordos firmados pelos Estados Unidos, as perdas líquidas para o
Brasil serão significativas no médio prazo. Isso se deve à dependência de
importações de bens de alta tecnologia daquele país, enquanto nossas
exportações concentram-se em produtos primários e bens industrializados de
média tecnologia, excetuando-se as aeronaves da Embraer. Ainda assim, o governo
deve evitar medidas de retaliação, pois uma guerra comercial bilateral
ampliaria os prejuízos para o Brasil, que possui menor poder econômico e
financeiro.
Apesar disso, há razões para otimismo no longo prazo. Se o Brasil aproveitar a
conjuntura para promover uma transformação estrutural, os ganhos futuros podem
superar os custos imediatos. A desindustrialização levou à reprimarização das
exportações: hoje, quase 70% das vendas externas concentram-se em produtos
primários e bens industrializados intensivos em recursos naturais. As medidas
de Trump evidenciam o alto custo de depender da exportação de commodities. É
hora de reagir com três diretrizes estratégicas:
1. Reforma da política de comércio exterior.
É urgente promover maior integração entre a política industrial e as políticas
de importação e exportação. A política industrial corrente - Nova Indústria
Brasil (NIB) - praticamente ignora a política comercial. Uma reforma na
estrutura tarifária é necessária, mas ela deve servir ao desenvolvimento
industrial brasileiro, não aos interesses americanos.
É viável reduzir ou zerar tarifas sobre bens de capital e intermediários não
priorizados pela NIB, e elevar moderadamente as tarifas de insumos estratégicos
à substituição de importações em níveis apenas necessários para equalizar
preços internos e externos, a fim de estimular a inovação, mas manter,
simultaneamente, a pressão da concorrência internacional.
Nas exportações, é essencial ampliar e diversificar a venda de manufaturados
com maior conteúdo tecnológico. Instrumentos como o drawback e financiamentos
do BNDES e Proex-Banco do Brasil devem ser usados com mais eficácia. É urgente
intensificar o marketing internacional para expandir a presença de produtos
"made in Brazil" no mercado externo. A internet é o meio mais
acessível, rápido e barato para alcançar consumidores diversos no mundo.
2. Ampliação e diversificação de acordos comerciais.
Embora o multilateralismo da Organização Mundial do Comércio seja desejável,
não se pode depender exclusivamente dele, sobretudo em tempos de incerteza. É
preciso ampliar acordos bilaterais e regionais, especialmente com países em
desenvolvimento cujos padrões de consumo se assemelham aos do Brasil e oferecem
maior potencial de ganhos de escala e comércio intraindustrial. Acordos como o
Mercosul-União Europeia não devem ser descartados, desde que incluam
salvaguardas que preservem instrumentos como conteúdo local e compras
governamentais.
3. Promoção da reindustrialização.
Apesar da expansão dos serviços, a indústria de transformação continua sendo o
motor da inovação e do crescimento sustentável. A atual política industrial
acerta ao focar em grandes missões estratégicas, mas precisa enfatizar três
eixos: i) transição energética e adoção de tecnologias de baixo carbono nos
processos produtivos; ii) digitalização da produção, com destaque à
inteligência artificial; e iii) transformação industrial dos minerais críticos
(lítio, cobre, cobalto, níquel c terras raras), amplamente utilizados em
setores de alta tecnologia. Hoje, esses minerais são exportados com baixo valor
agregado. O desafio é superar o modelo extrativista e construir uma política
robusta de agregação de valor, resistindo às pressões de potências como China e
Estados Unidos, que disputam essas riquezas. O Brasil deve evitar cair em uma
nova forma de "colonialismo verde".
Em suma, enfrentar o protecionismo americano e reagir às medidas que violam
nossa soberania exige firmeza política e pragmatismo econômico. Apesar dos
prejuízos econômicos no médio prazo, o Brasil pode transformar o desafio em
oportunidades no longo prazo: reestruturar sua política comercial, diversificar
mercados e, sobretudo, promover a reindustrialização baseada em inovação
tecnológica. Essas oportunidades são o caminho mais seguro para fortalecer
nossa soberania no futuro.
André Nassif, professor-associado do Departamento de
Economia e do Programa de Pós-graduação em Economia (PPGE) da Universidade
Federal Fluminense (UFF), foi economista do BNDES e é autor de Desenvolvimento
e Estagnação: o Debate entre Desenvolvimentistas e Liberais Neoclássicos, São
Paulo: Editora Contracorrente, 2023.